É o momento para arquitetarmos de forma racional
uma política industrial em torno deste cluster

Tem havido alguns mal-entendidos na abordagem deste tema. O debate começa com alguma polémica. Não me vou referir a aspetos técnicos, até porque os meus colegas são extremamente competentes nesses domínios, sobretudo o engenheiro Campos Henriques, que conheço há largos anos – o guru da molécula, o grande kof do H2O! –, mas vou tentar fazer a ponte sobre as conversas que temos tido na direção da AIP e da APD e com colegas empresários.

O assunto começou por ser tratado como uma solução para resolver todos os problemas das alterações climáticas, e de um dia para o outro! É um tema muito complexo, pois a maior parte das pessoas não está preparada. Há muitas linhas tecnológicas, umas mais maduras outras em desenvolvimento. 

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É um tema pensado há muito tempo. Há muitas janelas abertas, que podem amadurecer em termos de competitividade e eficiência, e outras que estão em fase incipiente, mas que poderão revelar grandes novidades.

O debate começou um pouco coxo, sejamos francos. Este tema faz sentido se as pessoas estiverem preocupadas com o aquecimento global e as alterações climáticas. Temos que estar sob este chapéu para olhar para a oportunidade e o contributo que o hidrogénio pode trazer.

Há outro aspeto a evidenciar que é a questão dos custos económicos do hidrogénio. A energia para a indústria, para a atividade económica e para os cidadãos em geral é uma questão a ter em conta e muito importante.

Há vários mecanismos para balancear este tema. Ainda hoje de manhã, no Conselho Estratégico Nacional da Energia da CIP, do qual sou presidente, ficamos preocupados porque há convergência de muitas situações que apontam para a progressão da tarifa, nomeadamente na indústria. É o carbono, o ISP (Imposto sobre os Produtos Petrolíferos e Energéticos), a tarifa social, a CESE (Contribuição extraordinária sobre o setor energético)… Isto é uma preocupação quanto à economia e ao preço.

Estamos preocupados com as alterações climáticas, mas há situações em que não podemos enveredar pelo mais barato. Se temos preocupações climáticas, há porventura alguma coisa a adaptar nas economias para mitigar os impactos negativos que temos a nível macro, regional e local.

Temos um problema de âmbito ambiental ao qual os países europeus têm de dar atenção. Começa, inclusive, a colocar-se a questão das taxas transfronteiriças relativamente ao carbono, entre outros.

Não há dúvida de que Portugal tem vantagens. Temos uma boa palete de diferentes fontes de energia renováveis, o que é muito interessante. Muitas vezes no nosso país não temos a consciência de que estamos do lado bom da história: temos um bocado de água, de ar, de lenhas, de vento, de geotermia, e sol!… Temos de tudo um pouco e isso é um ativo a ter em conta e que não existe em todos os países.

É o momento, não só para Portugal mas também para a Europa, de arquitetarmos de forma racional uma política industrial em torno deste cluster. Estivemos bem quando foi a questão do vento. Aliás, uma das grandes empresas que se instalou em Portugal está a contratar neste momento 600 pessoas.

Perdemos o comboio no fotovoltaico. A Europa e o Ocidente perderam. A China domina em termos de competitividade estas tecnologias.

É bom que tentemos entrar neste quadro. Ouço os meus colegas dizerem que o Governo espanhol e a Espanha querem ser os campões mundiais do futuro cluster industrial do hidrogénio. Alemães, italianos, japoneses e coreanos também o dizem. Portanto, não somos só nós. Muitos são os que que preveem um grande futuro para o hidrogénio. É, de facto, uma oportunidade, uma nova família industrial e tecnológica.

Julgo que nesta fase é importante não planear demasiado. Há muita coisa a mexer, o puzzle está a ajustar-se. Embora tendo metas como referência, é importante dar oportunidade aos agentes económicos para criar negócio, testar cadeias de valor, apalpar terreno, ver para onde se pode ou não pode, ver o que faz mais sentido e o que é mais difícil. Identificar as barreiras regulatórias para criar um playof que seja sexy.

Não é tanto o caminho para os TSO. Há a questão de clarificar a contabilização em termos de green-win deste produto para não fazer, por exemplo, uma dupla contabilização, porque a génese é por fontes renováveis que já se contabilizam na geração elétrica verde sem emissões. Essa eletricidade vai servir para produzir hidrogénio que era recontabilizado como livre de emissões.

A Endesa está a desenvolver vários estudos e alguns projetos junto das indústrias. Ir para os clusters e parques industriais como, por exemplo, Estarreja e Sines. Aparecer com unidades de forma escalonada e gradual “à boca da fábrica”. Aí não temos o problema de redes grandes, mas sim apenas a questão de juntar a uma pequena rede um eletrolisador e um carregador para usar as caldeiras a vapor. Poder substituir consumos térmicos que não podem ser eletrificáveis facilmente. 

Jornada Descarbonização | Hidrogénio - Mobilidade, 04 de nov 2020