O hidrogénio resolve as necessidades energéticas da indústria às quais
a eletricidade não consegue responder

Um dos melhores divulgadores que tenho ouvido a falar sobre hidrogénio é o secretário de Estado João Galamba.

A Associação foi criada em 2003, numa altura em que nos associamos a um primeiro projeto de hidrogénio em Portugal, de demonstração, criado para os autocarros dos STCP – Serviço de Transportes Colectivos do Porto. Nessa ocasião, surgiu um conjunto de entidades que consideram que o hidrogénio poderia ser bastante promissor. Passou por diferentes fases, mas foi uma promessa que foi sendo progressivamente adiada.

Em 2003, quando nasceu a associação, pensava-se que o hidrogénio estaria já pronto para entrar no mercado. Nesta época, a discussão sobre o hidrogénio estava relacionada com as questões das ameaças ao fim do petróleo. Tomamos, nessa altura, a consciência da finitude dos combustíveis fósseis. Precisávamos de alternativas. O hidrogénio aparecia como uma grande alternativa para a mobilidade. Surgem os primeiros grandes projetos de demonstração.

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O susto que apanhamos quanto à finitude dos combustíveis fósseis passou. Concluiu-que que afinal ainda havia reservas fósseis suficientes como o gás natural. O entusiasmo à volta do hidrogénio esmoreceu-se significativamente. Na segunda fase, mais recente, que teve o seu ponto alto a partir da conferência de Paris, em 2015, onde a humanidade apanhou um segundo susto, confrontada com a necessidade de soluções para controlar a emissão de gases poluentes, entre eles a de CO2, e medidas de controlo climático.

A partir de 2015 o hidrogénio ganha um novo impulso, um novo drive, atual, gerando à sua volta um consenso político alargado.

Não há uma solução que dá para tudo. O hidrogénio é uma parte da solução. Não é a solução energética. Temos de ter isso em atenção. O hidrogénio não é um combustível primário, é um vetor secundário. Tem de ser produzido e armazenado.

O hidrogénio é o vetor energético que nos vai permitir dar solidez e resiliência a um sistema energético que tem de ser predominantemente assente num quadro de energias renováveis. As energias renováveis, como as que temos, têm caraterísticas próprias como não serem despachadas e revelarem-se aleatórias e intermitentes.

Precisamos de uma solução que dê consistência a um sistema energético em que a principal fonte primária ofereça fiabilidade e possibilidade de ajustar a procura com a oferta. O hidrogénio veio dar consistência a esse sistema energético que tem esse conjunto de caraterísticas.

A Estratégia Nacional para o Hidrogénio, tal como foi apresentada e aprovada este ano, na prática aponta quatro grandes vetores onde o hidrogénio tem um grande papel a desempenhar. Por um lado, é um vetor energético que vai contribuir para a descarbonização da rede de gás natural e, a médio prazo, talvez venha a substituir o próprio gás natural, a partir de 2040, de acordo com as previsões. É necessário um vetor energético que resolva as necessidades energéticas do ponto de vista doméstico e da indústria às quais a eletricidade não consegue responder. Na nossa opinião, o hidrogénio é esse vetor! Por um lado, contribui para a descarbonização da rede de gás natural. Pode ser o vetor sucedâneo a prazo como combustível. Tem aplicações na mobilidade, inclusive na pesada. Vai ser um problema do mercado e dos seus próprios agentes. Em que medida as viaturas ligeiras a hidrogénio aderiram? Veremos como o mercado e os custos vão evoluir.

Um terceiro ponto, é o hidrogénio contribuir para a gestão da minha rede elétrica com as caraterísticas já referidas.

Os agentes económicos, de uma maneira geral, responderam de forma surpreendente aos desafios que a Estratégia Nacional do Hidrogénio lhes colocou. Essa resposta surpreendeu-me!

Foram abertas manifestações de interesse ligadas a uma potencial candidatura portuguesa ao IPCEI Hidrogénio. Se olharmos para o conjunto de projetos que foram apresentados nessas manifestações de interesse para o IPCEI, quer pela qualidade quer pela ambição dos projetos quer ainda pelos atores que apareceram para os promover, a resposta económica à volta desse desafio é algo que do ponto de vista de associação devemos relevar. O hidrogénio é uma solução energética importante, mas que é preciso regulamentar, legislar e ver como vai progressivamente entrar no futuro sistema energético.

O debate que tem havido à volta da estratégia revela um problema de literacia em termos de hidrogénio. Perante esta adversidade, a minha Associação decidiu lançar uma ação de formação e de iniciação no hidrogénio. Ficamos muito surpreendidos com a adesão que tivemos nesse curso, ultrapassou largamente as espectativas. Temos várias empresas com dezenas de pessoas inscritas no curso, como é o caso da Endesa, em que o primeiro da lista é o CEO da empresa.

O que importa aqui reter é a resposta do mundo empresarial ao desafio da Estratégia Nacional para o Hidrogénio, que não estará ainda otimizada e terá também aspetos a melhorar. Mas o que importa reter é aquilo que ela representa como espectativa que soube criar no mundo empresarial português. E isso é importante reconhecer.

Temos de começar a trabalhar e trazer o hidrogénio para esta fase de dualismo, para o introduzir no nosso quotidiano.

Tenho-me dedicado às questões sobre os custos do hidrogénio. Podemos ter uma expetativa positiva. O hidrogénio pode, sem exagerar, criar facilmente as condições de poder entrar no sistema energético com custos competitivos com os outros vetores energéticos a que estamos mais habituados.

Jornada Descarbonização | Hidrogénio - Mobilidade, 04 de nov 2020