Jornada DESCARBONIZAÇÃO - HIDROGÉNIO – MOBILIDADE

Perguntas e Respostas

JOÃO AMARAL DOS SANTOSAna Quelhas, existe o risco de as empresas e os consumidores em geral verem a sua fatura agravada com os custos deste projeto?

ANA QUELHAS
É óbvio que o hidrogénio verde, hoje, não é competitivo. Mas não o é porque enfrenta uma distorção existente que é o peso do carbono. Faz sentido falarmos sobre o hidrogénio verde se acreditarmos que temos de descarbonizar. E isto representa um custo.

A partir do momento em que não internalizamos o custo do CO2 nas mais variadas atividades de consumo energético, não estamos a comparar coisas comparáveis.

O hidrogénio cinzento é mais barato que o verde. Mas é o mesmo produto? No final do dia, é a mesma utilidade energética. Mas um tem ou pode ter conteúdo carbónico nulo, se é produzido com renováveis, e o outro não. Portanto, não estamos a comparar coisas comparáveis.

O facto de não estarmos a pagar pelo CO2 o seu devido custo no hidrogénio cinzento que consumimos hoje, porventura leva-nos a induzir aí uma competitividade distorcida entre um vetor energético que é descarbonizado e um que não é. Portanto, existe naturalmente um gap de competitividade que é em parte explicado por estas distorções que existem no mercado.

Também a própria tecnologia trilha um caminho impressionante. Na última década, a produção de energia solar caiu 90%! Os custos da produção de energia eólica – encarada como uma tecnologia madura, sobretudo quando comparada com o solar – caiu 50% nos últimos dez anos!

Nos próximos dez anos, os eletrolisadores, que têm feito um percurso impressionante, continuarão a cair pelo menos para metade do custo da sua produção, e as renováveis seguirão o seu caminho de aprendizagem.

Tudo leva o crer que o gap de competitividade se estreitará também pelos próprios custos da produção, quer no que respeita às tecnologias quer na parte das renováveis. Tal acontecerá se fizermos este caminho de convergência entre aprendizagem tecnológica, procura organizada e também incentivada por um enquadramento regulatório que seja coerente com o nosso desígnio da descarbonização, nomeadamente através de um princing de CO2 adequado e de um enquadramento fiscal coincidente com esta necessidade de descarbonizar da qual estamos ainda muito longe.

Há um caminho fértil para trabalharmos, em termos de enquadramento regulatório, de mercado e fiscal para termos todos os incentivos agregados neste caminho da descarbonização.

Vamos convergir para daqui a dez anos não estarmos a discutir o gap de competitividade do hidrogénio e, em particular, nalguns usos.

Até lá estes incentivos têm de existir. Donde vêm os incentivos e onde vão ser alocados? Na minha opinião e de acordo com o que temos vindo a defender na EDP, os incentivos têm de vir através do princípio poluidor pagador.

O princípio poluidor pagador é algo bastante genérico e pode parecer académico, mas existem instrumentos fiscais que devem ser trabalhados para que aqueles que mais poluem paguem mais por isso. No entanto, não podemos, de um momento para o outro, taxar o CO2 e penalisar indústrias que são importantes ou famílias mais desprovidas de rendimentos.

Um enquadramento mais abrangente de impactos económicos e sociais tem de ser acompanhado por uma reciclagem eficaz que passa por induzir comportamentos eficientes, o que representaria também uma fonte de receita para financiar investimentos e consumos.


JOÃO AMARAL DOS SANTOSNuno Ribeiro da Silva disse que as soluções não se esgotam no quadro do hidrogénio. Que planos tem a Endesa em cima da mesa para uma aposta imediata?

NUNO RIBEIRO DA SILVA
Os planos que temos são muito convergentes com os de outras utilities elétricas como a EDP. Estamos comprometidos com este processo da descarbonização porque, à tort ou à raison, a energia em geral, mas a eletricidade em particular, é um dos principais inimigos públicos responsável pelas emissões de gases com efeito de estufa.

No setor energético, em especial o petróleo, o gás e a eletricidade, temos uma intervenção com interfaces críticas em termos ambientais lato sensu (qualidade de vida, contaminantes e impactos visuais, por exemplo) em toda a fieira.

Quando vamos minar carvão, esgravatar petróleo e gás, e depois transportamo-los por barcos e por tubos porque temos de os transformar para os consumirmos… O setor energético a nível mundial tem uma responsabilidade muito grande em todos estes desafios.

Seguindo as tendências e as orientações gerais de Bruxelas, o Estado português foi signatário dos principais compromissos como o Acordo Verde Europeu e os planos de neutralidade carbónica, agora catalisados com estes programas financiados pela Comissão Europeia para assegurar a descarbonização, a qualidade de vida e a biodiversidade, ou seja, as questões do pacote ambiental.

Os sete mil milhões de que se fala do projeto de Sines nada têm a ver com o facto de o Estado ir dar…

ANA QUELHAS
Deixe-me interrompê-lo para dizer que os sete mil milhões de euros constam da estratégica como objetivo de investimento global entre sete a nove mil milhões, até 2030. Parte disso será o projeto de Sines, que chegará a dois mil milhões, investimento privado. Apoio público serão 900 milhões, dos quais metade financiados por instrumentos europeus e a outra parte por instrumentos nacionais.

NUNO RIBEIRO DA SILVA
Enfim, é o que é. Mas também não é aquela história dos sete mil milhões… Portanto, estamos todos envolvidos: EDP, Iberdrola, Enel, Endesa e agora a Galp, a Repsol, a BP, o que é interessante. A Repsol é já o maior operador solar em Espanha. Uma companhia petrolífera! Quem diria! A Repsol tem um programa estratégico de investimento que é muito maior na transição energética – leia-se eletricidade, investimento em fontes renováveis e em toda esta dinâmica do hidrogénio e da transição energética –, do que investir na atividade tradicional petroleira e gasista!

Cada um segue o seu caminho. A Enel e a Endesa já há muito tempo que andam neste caminho. E associados a outro aspeto que é a digitalização. Ou vamos por aí – pela transição e digitalização, assumindo novas formas de abordagem do negócio e de atuar na cadeia de valor –, ou então utilities mais pesadas e mais tradicionais como as nossas, serão fulminadas.

A Endesa continua o seu trabalho nas renováveis e na otimização energética, com preocupação na descarbonização e no desenvolvimento de redes mais inteligentes, com menos perdas e mais serviços. Continuaremos a fazer sinergias nas infraestruturas que temos para melhor as rentabilizar e para não passarmos para estes senhores [EDP] os custos dos acessos e uso da rede tão elevados.

Em Portugal, a seguir à EDP, somos a segunda companhia do setor elétrico gasista com mais protagonismo.

JOÃO AMARAL DOS SANTOSNum recente artigo de opinião assinado pela Galp e publicado no jornal Público, em Novembro último, a empresa critica o Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050 considerando que essa estratégia poderia afetar a viabilidade da indústria de refinação, chamando a atenção para o facto de a Galp ser a maior exportadora do país. Sérgio Machado, até que ponto está a Galp preparada para esta transição energética e quais são os planos gerais da empresa?

SÉRGIO GOULART MACHADO
A Galp está bastante empenhada na transição energética.

A Galp é uma das empresas portuguesas que mais investe anualmente. Está nos seus planos aplicar 40% do seu investimento anual na transição energética, nos próximos anos.

A Galp é já o maior player na produção de eletricidade solar na Península Ibérica, com 900 MW em operação. Em construção, tem quase 3000 MW e planos para 10 GW até 2030, o que é muito! Para além da produção centralizada, há também uma aposta grande na produção fotovoltaica descentralizada.

A Galp também aposta na eletrificação da mobilidade, sendo o maior operadora de pontos de carregamento em Portugal. É autora de várias soluções pioneiras na descarbonização de frotas para clientes de B2B.

A descarbonização dos combustíveis é outra área onde a Galp tem também criado soluções pioneiras. É uma produtora de biocombustíveis, num segmento específico importante que é o dos resíduos, transformando-os em biocombustíveis e não entrando em concorrência com a cadeia alimentar, mas lançando novos projetos com os quais está a dar passos concretos.

JOÃO AMARAL DOS SANTOSSabemos que o custo do hidrogénio tradicional ronda o 1,5€/kg e o do hidrogénio verde pode variar entre os 2,50€/kg aos 5,5€/kg. Também sabemos que a própria Estratégia Nacional para o Hidrogénio admite que os custos poderão manter-se elevados até 2035. Campos Henriques, pela sua experiência, a partir de quando é que esta tecnologia poderá ser competitiva, uma vez que este é um dos principais argumentos daqueles que se opõem à estratégia nacional para a produção de hidrogénio verde?

JOSÉ CAMPOS HENRIQUES
Temos de ser um pouco tolerantes em relação ao preço e ao custo do hidrogénio, pois é um segmento económico que está a dar os seus primeiros passos.

Há quatro fatores que vão condicionar os preços da cadeia de valor do hidrogénio. Por um lado, a dimensão dos esquipamentos. Há um efeito de escala ao nível dos equipamentos. É diferente o preço do hidrogénio se estivermos a utilizar eletrolisadores de 100 kW ou de 1 MW, ou se estivermos a produzir hidrogénio a partir de um eletrolisador de 15 MW.

O efeito escala é um fator extremamente determinante o que faz, mesmo com as tecnologias de hoje, reduzir o preço do valor de referência do hidrogénio que poderá andar na zona dos 1000€ por kW, por exemplo para um eletrolisador de 1 MW, ou fixar-se nos 700€ por kW para um eletrolisador de 15 MW. Estou a utilizar um termo de referência para 2025.

Existem projeções feitas por um estudo recentemente publicado por uma equipa do MIT e da Universidade de Harvard que aponta um valor do eletrolisador PEM na ordem dos 300€ por MW. Portanto, passamos de 1000€ para 300€ por MW.

Outro fator muito importante na definição do preço do custo do hidrogénio é o tempo de operação do eletrolisador. Na prática, qual é o Capex (Capital Expenditure) à volta do eletrolisador. Se trabalharmos com energias renováveis dedicadas, quer dizer que o eletrolisador labora uma média de 1700 horas por ano, se for energia solar. Então, vamos ter de amortizar o valor desse eletrolisador, nessas 1700 horas. Se tivermos esse eletrolisador a trabalhar 7000 horas por ano, dou-lhe um custo completamente diferente. O meu Capex cai de uma forma proporcional, dos 1700 para os 7000.

Estamos numa fase ainda muito insipiente e emergente deste segmento económico. O terceiro fator tem a ver com a produção industrial. Uma situação é produzirmos um eletrolisador por dia; outra é termos uma cadeia de produção industrial em que vamos organizando a nossa produção de uma forma totalmente diferente. Passar do artesanato para a produção em massa. É o caso do projeto de Sines. Se vamos produzir 100 ou 1000 MGW, então temos condições para uma produção maciça. Essa é a aposta que neste momento se está a fazer em países como França, Itália e Alemanha. Ou seja, à medida que o mercado cresce, criamos condições para ter outra forma de produzir.

O exemplo dos carros. A primeira empresa que construiu uma fábrica de carros a hidrogénio foi a Toyota que fez uma produção em série do Toyota Mirai, um toral de 3000 unidades por ano. Está para ser inaugurado, se não foi já, a sua primeira fábrica de produção industrializada de cadeia de montagem, com 30 mil carros por ano. Temos de saber internalizar esta graduação e os custos associados a este processo de aprendizagem.

O quarto e último fator é a evolução da tecnologia, que neste momento é muito significativa. Voltemos a olhar para os eletrolisadores, cuja eficiência atinge os 50%, 60%. Isto significa que para produzirmos uma tonelada de hidrogénio, serão necessários cerca de 52 MGW/hora.

O trabalho que está a ser feito em termos de eficácia da tecnologia permite-nos prever que iremos precisar de aumentar a eficiência para cerca de 70%, valor necessário para produzir essa mesma tonelada de hidrogénio, mas utilizando pouco mais de 40 MW/hora.

Não é correto compararmos querermos comparar valores hoje como se estivéssemos a falar duma tecnologia que estivesse já percorrido toda a sua curva de aprendizagem. Repito o conselho da engenheira Ana Quelhas – só devemos comparar coisas comparáveis!

Outro ponto para refletir. Como vai ser a evolução do custo da tonelada do CO2? Hoje estamos a pagar 25€ e a 30€ a tonelada do CO2. Os estudos sobre o Roteiro da Neutralidade Carbónica – lembro-me de afirmações da professora Júlia Seixas –, apontavam para valores na ordem dos 200€ e 300€.

É mais ou menos consensual que a tonelada de CO2 até 2030 possa evoluir até cerca de 100 euros.

Quando internalizarmos esses custos (princípio do poluidor-pagador) o que é que isso significa do ponto de vista de competitividade do hidrogénio relativamente às energias alternativas.

Se tivermos o hidrogénio a 6€ o quilo no mercado, na estação de serviço, então teremos um preço inferior ao dos combustíveis fósseis hoje, da gasolina ou do diesel.

Esse objetivo é viável, mas vai exigir um quadro de apoio e de incentivos na zona de Capex, na ordem dos 50%. O que é, na prática, antecipar os custos que a tecnologia vai ficar daqui a 10 anos. Se dermos hoje os 50% que correspondem áquilo que pensamos pagar pelo equipamento daqui a 10 anos, conseguiremos então atingir estes seis euros por quilo.

Para isso, não contaremos apenas com as verbas do CO2, mas também com os programas de resiliência que apoiem sobretudo nos primeiros passos que são necessários dar para que as tecnologias entrem no nosso quotidiano.

SÉRGIO GOULART MACHADO
Todos os projetos de escala do hidrogénio estão a trabalhar nesta otimização referida pelo engenheiro Campos Henriques. As variáveis são o Capex, o custo da eletricidade e o fator de utilização do eletrolisador e do sistema.

Um exemplo de como este esforço tem de ser feito. Se tivermos um eletrolisador só ligado a um parque fotovoltaico com a mesma dimensão, estávamos a utilizá-lo 1700 ou 1800 horas por ano. Em sítios bons, 2200 horas. Isto é mau porque é pouco! É desaproveitar aquele Capex que tivemos no eletrolisador. Sobretudo no início, em que estamos mais obrigados a tentar reduzir o Capex.

Temos de ser mais construtivos. Porque é que Sines está numa posição tão boa? Porque pode aliar várias formas de energia renovável. Não podemos trabalhar apenas com o sol ou com o vento, mas sim com ambas as fontes, que se complementam.

Fazemos o oversizing das fontes da energia renovável. Porquê? Porque são poucas as horas em que o parque eólico produz na sua máxima capacidade. O melhor dos parques solares trabalha mais que 2200 horas. Mas à capacidade máxima equivalente só trabalha essa quantidade de horas.

Se fizermos o oversizing no parque renovável vamos ter uma oferta maior no eletrolisador. É extremamente importante fazer isto. Do outro lado, é também necessário fazer algo com o eletrolisador. Temos de garantir que desde o princípio começa a aumentar o fator carga do eletrolisador, que quisermos grande para aproveitar a escala. É esta otimização que, de forma resumida, está a ser feita.

MANUEL ALEGRIA (participante) | Grupo Simoldes (processo e execução de soluções)
Somos um país em que 80% das empresas são pequenas e médias. Normalmente, os estudos e os debates morrem na meia dúzia de super empresas que controlam todos os objetivos. Penso que quer política quer industrialmente, as PME deveriam fazer parte destes estudos. Somos muitas vezes esquecidos. Porque digo isto? Porque toda esta tecnologia termina com processos e estes incluem equipamentos, componentes, estudos, engenharias… E muitas vezes são utilizamos o produto nacional.

Dou um exemplo. Em Portugal, temos uma grande capacidade para fazer componentes. Hoje existem soluções fotovoltaicas flutuantes com tecnologia única, cem por cento portuguesa. Em Portugal, é habitual vermos, na finalização dos estudos, recorrer a empresas exteriores, fora do país, para fazer a instalação. Penso que no futuro deveria ser feito uma análise ao tecido industrial e áquilo em que ele pode acrescentar valor, principalmente valor nacional.


JOÃO AMARAL DOS SANTOSAna Quelhas, penso que o próprio projeto de Sines, em que estão envolvidas a EDP e a Galp, também prevê apoio à indústria como um todo.

ANA QUELHAS
As empresas estão claramente mais envolvidas no projeto de Sines. Além da EDP e da Galp, temos connosco a Martifer. Em Sines, como sabem, a central a carvão está a ser descontinuada. Temos uma presença forte naquele distrito e de há muitos anos. Esta presença extravasa completamente o número de empregados da EDP.

São imensas as pessoas e as empresas, PME, envolvidas na atividade da central de Sines! Há muitas empresas subcontratadas. É uma preocupação clara para nós dinamizar a economia local. Faz parte do nosso esforço repensar uma vida para além de Sines, saber quais os projetos que se enquadram e que são coerentes com a transição energética, mas também acolher aqueles que trazem mais valias à região e à economia do país.

SÉRGIO GOULART MACHADO
Quem trabalha em instalações industriais de grande porte sabe como é a central a carvão de Sines e a refinaria da Galp também aí localizada. Uma instalação industrial é um ecossistema que se desenvolve em torno de uma região. Portanto, não são apenas aqueles que vierem a ser acionistas de um eletrolisador.

Foi uma boa surpresa o IPCEI * (Important Project of Common European Interest / Projeto Importante de Interesse Europeu Comum) do Hidrogénio ter tido mais de 70 projetos apresentados! É significativo, bem como o facto desta sala onde nos encontramos hoje estar cheia! São projetos de empresas grandes, médias, pequenas e de outras ainda mais pequenas. Há muitas empresas a mexer à volta do hidrogénio!

Chamo a atenção para o facto de o H2 Sines não ser apenas um projeto em que se desenvolvem renováveis para produzir e escoar hidrogénio. É muito mais que isso! Tem uma componente de investigação, desenvolvimento e inovação; um laboratório colaborativo associado que envolve mais de 35 entidades, entre elas empresas de todas as dimensões que aqui se reúnem para fazerem do hidrogénio o vetor energético mais competitivo.

O projeto H2 Sines tem uma componente muito importante que é a industrial. Ou seja, pretende-se privilegiar a criação dum cluster industrial à volta do hidrogénio – o desejado ecossistema do hidrogénio.

ADRIANA REAIS PINTO | Engenheira. Técnica especialista do Gabinete do secretário de Estado da Energia, João Galamba
É importante relembrar que o processo da estratégia nacional para o hidrogénio, entre a sua versão inicial e a publicação da versão final, obteve uma elevada e ativa participação dos vários agentes em diversas sessões, com discussões setoriais focadas no cluster da inovação e investigação e envolvendo pequenas, médias e grandes empresas assim como o setor do emprego.

Foi muito interessante perceber nessas sessões o facto de os seus participantes reconhecerem as vantagens de trabalharem em conjunto nesta cadeia de valor estratégico que resulta tanto melhor quanto os contributos muito específicos oriundos de diferentes setores.

Queremos criar e dinamizar um cluster industrial nacional para o qual estamos a considerar a participação desse tecido empresarial nacional.

Temos uma grande capacidade ao nível da engenharia e da investigação. Foi também focado o convite à manifestação de interesse para o IPCEI do hidrogénio na área da inovação, nomeadamente para o fabrico das várias componentes do eletrolisador, aproveitando a sua utilização com água salgada. Não é dessalinização, mas sim inovação associada ao fabrico dos equipamentos. Vamos tentar trabalhar também com fontes hídricas alternativas, mas sempre atentos à sustentabilidade e aos recursos disponíveis.

A Estratégia Nacional para o Hidrogénio não se esgota no projeto de Sines, que está lá identificado como projeto âncora. Terá um tecido empresarial associado a esse projeto de maior dimensão. Identificamos mais de 70 projetos apresentados, dos quais 37 passaram a uma fase seguinte de seleção.

Envolve mais de 50 pequenas e médias empresas. Participam também empresas de outros países que só foram consideradas elegíveis nesta primeira fase se estivesse demonstrada a aquisição de valor em território nacional, nomeadamente através de estabelecimento em Portugal ou pela criação de emprego no país. Mas sempre com partilha de know how e trabalhando sempre com parceiros nacionais.

Consideramos extremamente relevante o envolvimento dos vários atores para fomentar a reconhecida capacidade de Portugal para dar o seu contributo nesta estratégia europeia.

JOSÉ CAMPOS HENRIQUES
Há cerca de oito anos visitei uma feira de hidrogénio no Japão. Fiquei espantado quando, em vez de ver automóveis e eletrolisadores, por exemplo, reparei que dois terços da feira eram ocupados por pequenas empresas que faziam bombas e o mais variado bric-à-brac que o sistema vai necessitar! Não é necessário estar só a fabricar alta tecnologia.

A feira de Hannover tem um pavilhão especialmente dedicado ao hidrogénio. Portugal é parceiro convidado na próxima edição, em 2022. Espero que possamos ter lá uma grande participação, pois esta é a principal feira de tecnologias do hidrogénio.

Na feira de Hannover tinha os players do hidrogénio e na de Tóquio a cadeia de valor que está associada aos sistemas de hidrogénio, que correspondiam a dois terços do certame. É essa oportunidade que temos de saber valorizar.

O cluster do hidrogénio não é necessariamente só fazer as tecnologias mais diretamente ao setor, mas antes sabermos trabalhar toda a cadeia de valor que vai permitir ter os tais eletrolisadores de 100 MGW em Sines. É muito importante que nesses 100 MGW em Sines, 60% ou 70% de valor acrescentado seja com indústria nacional. Isso é possível, temos é de estudar a aproveitar as oportunidades.

PARTICIPANTE (não identificado)
O papel do hidrogénio na eficiência energética já hoje acontece. Injetar energia, hidrogénio e oxigénio nas combustões é uma realidade. Aumenta a eficiência de forma drástica e é, do ponto de vista económico, viável. Em Portugal já existe uma empresa que o faz para o mundo, que vende o eletrolisador e o que está à sua volta. Produz máquinas que são pagas em seis meses! Portanto, o hidrogénio está cá e é para ficar!

A rede elétrica futura vai ser bilateral. Vai ter os chamados prosumers. O hidrogénio, também vai ter. Quando faz eletrolise, há hidrogénio, mas há oxigénio que também tem valor. Na minha opinião, o hidrogénio não é segunda vaga. O hidrogénio veio para ficar!

JOÃO BERNARDO | Diretor-geral de Energia e Geologia
Vou tentar descodificar a visão daquilo que é a transição energética na opinião do Estado e da Diretor-geral de Energia e Geologia que represento.

A transição energética é motivada pela descarbonização dos vários setores de atividade e tem um custo. Preferimos olhar para a descarbonização e para a transição energética não como um custo, mas como um investimento.

Temos de fazer um investimento para mudar de modelo energético tradicional, centralizado, baseado em combustíveis fósseis e com algumas renováveis, introduzidas nos anos noventa com alguns custos.

A eólica custou-nos muito porque apostamos no Opex**(Operational Expenditure) em vez do Capex. Foi um erro de iniciante, pois estávamos ainda a aprender. Mas não fizemos isso com o solar, pois aprendemos a lição. Estamos a resolver o problema da dívida tarifária, que tem vindo a diminuir drasticamente, e está a cerca de metade daquilo que já foi. Tencionamos resolver este problema até 2025.

O hidrogénio é uma tecnologia promissora e tem um papel determinante na transição energética. Um papel que vai regular-se ao longo desta década. É uma tecnologia ainda muito nova e insipiente, apesar de ser conhecida e testada em laboratórios há muitos anos.

Para mim é muito claro que quer a transição energética quer a própria participação do hidrogénio nessa transição não podem pôr em causa a competitividade das empresas. Isso é que importa!

O setor energético existe como um setor que tem o seu negócio próprio, mas a energia em si é apenas um meio para atingir um fim e esse fim é que as empresas e os cidadãos tenham um custo de energia barato e acesso a energia barata.

Vivemos num mundo competitivo, queremos manter a competitividade, mas vamos com certeza encontrar formas de introduzir o hidrogénio, mas sem trazer custos acrescidos ao nosso modo de estar e de competir.

Temos uma curva de maturidade do hidrogénio que está a fazer o seu caminho. Vamos fazer agora projetos piloto, de demonstração, para testar o conceito, para obter rentabilidade do projeto. Temos de ter horas de produção. O primeiro dinheiro que vamos investir é para isso. Também temos de ganhar escala que é outra forma de baixar preços e conseguir ter uma oferta maior. Para termos combustíveis fósseis temos de ter reservas e a 90 anos!

Precisamos de internalizar o preço do CO2. Há ainda um conjunto de outros fatores que não estamos a contabilizar. Para termos combustíveis fósseis como gás natural e petróleo necessitamos de ter reservas e a 90 dias, conforme somos obrigados, o nosso país e outros. Isto representa um preço brutal!

Temos outros custos que são de difícil contabilização. Alguns deles estão relacionados com eficiência energética, com questões de geoestratégia como ir buscar energia em sítios onde por vezes não existe ou onde há dificuldade em negociar, e com flutuações de preços cambiais.

Tudo isto internalizado permite ter uma perspetiva para uma endogeneização do hidrogénio com mais valias extremamente preciosas. É preciso haver uma noção muito mais vasta do impacto que o hidrogénio vai ter para não ver nele apenas um custo para poder acontecer.

O hidrogénio não é uma vaidade, é uma oportunidade e um desafio que temos pela frente!

JOÃO GUERREIRO | AQVA MORE
Parece que Portugal está especialmente bem colocado para a produção de hidrogénio. Irá superar as necessidades de consumo interno? Podemos ambicionar sermos a médio prazo exportadores de hidrogénio?

ANA QUELHAS
Do ponto de vista dos recursos energéticos, Portugal está muito bem posicionado. Temos bom sol e bom vento. Temos também um offshore que não é despiciente, de águas profundas, e, portanto, exige uma tecnologia peculiar, de eólica offshore [consiste na implantação de turbinas eólicas no alto mar, no entanto, apesar do termo “offshore” possuir o significado de “no mar” ou “em alto mar”, também é possível criar parques eólicos em massas de água terrestres, nomeadamente lagos, rios ou outras áreas costeiras].

Temos recursos renováveis privilegiados como a hídrica que em grande parte já está explorada ou a sê-lo. Quanto a infraestruturas, temos redes de gás e de comunicação para fazer o transporte de hidrogénio. O hidrogénio, produzido por eletrolise, beneficia de uma particularidade face ao hidrogénio cinzento que é a caraterística altamente volátil dos eletrolisadores que permite muitas vezes ultrapassar os desafios de não existir uma logística totalmente estabelecida para o transporte e a distribuição do hidrogénio. Essa logística não existe, mas é facilmente ultrapassável através da produção localizada. Não quer dizer que seja pequena, mas numa escala que seja adequada ao consumo que existe naquele local ou num raio razoável de distribuição do hidrogénio.

Quando falamos de exportação de hidrogénio, referimo-nos a uma escala global. Onde se posiciona Portugal? Vamos ter concorrentes bastante fortes no Médio Oriente e, eventualmente, também no sul e no norte de África, no sul da América, na Austrália… enfim, vamos ter concorrentes fortes, inclusive para abastecer a Europa do Norte. Mas uma coisa é certa: o consumo que existirá no norte e centro da Europa é fisicamente impossível ele ser todo produzido lá. Portanto, ele terá de ser importado.

A Alemanha, e devido à sua escala, será um grande consumidor de hidrogénio verde no futuro. Há um desafio grande para ter todas as renováveis só para eletrificar. Na estratégia do país está estabelecido que será importador líquido de hidrogénio oriundo das geografias que sejam capazes de o produzir de forma mais competitiva. Aqui, Portugal está muito bem posicionado.

Teremos excedentes? É a questão que se coloca. Por um lado, temos um tecido empresarial que não tem as necessidades de consumo de hidrogénio como tem a Alemanha e a Holanda, onde existem grandes consumidores como indústrias químicas e petrolíferas. Poderemos ambicionar alterar o nosso padrão industrial e trazer uma nova indústria para Portugal que tire partido do facto de termos capacidade de produzir hidrogénio.

O amoníaco, por exemplo, é um produto que importamos. Ser tivéssemos capacidade de fabricar hidrogénio verde competitivo, faria sentido produzir o amoníaco no nosso país, porque controlaríamos toda a sua cadeia.

Portugal está muito bem posicionado para ter excedentes competitivos de hidrogénio, tirar partido dos recursos que possui e ter um papel importante enquanto exportador. É nesse âmbito que se enquadra o projeto de Sines. Por definição, o projeto ambiciona exportar hidrogénio para outro país. Doutra forma, não teria cabimento.

ANDREIA REAIS PINTO
A Estratégia Nacional para o Hidrogénio prevê uma produção descentralizada, em várias regiões do país, mas também a exportação. O hidrogénio não vai ser todo fabricado em Sines. Isso está alinhado com as nossas necessidades de consumo interno. Há muito projetos – uns são piloto, outros estão em teste e outros já se encontram em curso – identificados na estratégia para dar visibilidade às empresas.

* Das 74 manifestações de interesse apresentadas a 17 de julho de 2020, relacionadas com a preparação da candidatura portuguesa ao Important Project of Common European Interest (IPCEI) do Hidrogénio, passaram à fase seguinte 37, depois da triagem efetuada pelo Comité de Admissão. Estes 37 projetos representam um investimento de cerca de nove mil milhões de euros.

O Comité de Admissão de Projetos integra as áreas governativas da Economia e Transição Digital, do Ambiente e da Ação Climática, da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior e dos Negócios Estrangeiros. O Comité contou com o apoio técnico da Direção Geral de Energia e Geologia e do Laboratório Nacional de Energia e Geologia, e foi criado no âmbito do despacho nº 6403-A/2020, de 17 de junho, que procedeu à abertura do período para a manifestação de interesse.

Os projetos com potencial para integrar a candidatura IPCEI permitiram estimar os valores de investimento potencial e identificar os fatores críticos, por componente da cadeia de valor.

Para a candidatura IPCEI inicia-se agora um processo mais aprofundado, que exige mais detalhe de informação e de verificação das orientações específicas e transdisciplinares, definidas para a análise da compatibilidade com o mercado interno. Será ainda necessário estabilizar os valores de investimento e obter informação técnica e financeira mais detalhada. Este trabalho de aprofundamento permitirá selecionar os projetos que integrarão a candidatura IPCEI e será desenvolvido pelos participantes selecionados pelo Comité em estreita articulação com as entidades nacionais.

As propostas apresentadas no âmbito da manifestação de interesse que tiveram parecer desfavorável do Comité de Admissão continuam a ser uma mais valia na cadeia de valor do hidrogénio e na prossecução da Estratégia Nacional para o Hidrogénio (EN-H2).

Poderão, por isso, candidatar-se ao aviso do Programa Operacional Sustentabilidade e Eficiência no Uso de Recursos, no valor de 40 milhões de euros, bem como a outras fontes de financiamento setoriais e disponíveis no âmbito do Portugal 2020 e, ainda, a fontes europeias (por exemplo, o programa Horizon Europe).