O hidrogénio poderá ser também uma solução
em complementaridade com as baterias

Os desafios da descarbonização são amplamente conhecidos e transversais. Quero destacar que embora a descarbonização seja de facto um objetivo transversal é um desejo comum da humanidade.

Apesar de nem todos os países estarem igualmente empenhados, em Portugal a situação é radicalmente diferente. Somos um país cem por cento dependente da importação de combustíveis fósseis. Obviamente, se as coisas forem feitas “com pés e cabeça”, a substituição das importações de recursos endógenos é uma equação evidente para qualquer economista e qualquer pessoa com o mínimo de senso comum. Mas, repito, se as coisas forem feitas “com pés e cabeça”!

Portugal tem, de facto, metas ambiciosas exatamente porque entendemos que, no nosso caso, ser ambicioso faz sentido. Porque, as alterações energéticas e a descarbonização são, para além de oportunidades ambientais, oportunidades económicas.

Entendemos que faz todo o sentido ter essa ambição acrescida. Porque vemos a transição energética como uma oportunidade, entendemos que a dita ambição não é nenhum delírio ou um “voluntarismo” infundado. Pelo contrário, é um “voluntarismo” inteiramente fundado, consciente e equilibrado.

Iremos assistir a um duplo movimento: descarbonização dos consumos elétricos existentes e de alargamento dos consumos energéticos. Portanto, a eletrificação far-se-á de forma mais verde e mais abrangente! Os vinte e pouco por cento de consumo de energia tenderá seguramente a aumentar.

A discussão pública do Plano Nacional da Energia durante o ano de 2019 foi muito importante. Reconhecemos que a eletrificação, embora seja a aposta principal, não é suficiente e não permitiria descarbonizar todos os consumos existentes e previstos.

A questão dos gases renováveis e, em particular, a do hidrogénio, pela sua complementaridade com a eletrificação, permite tornar a nossa estratégia de descarbonização e a visão integrada do sistema energético mais coerente. As metas, que já tínhamos definido para 2030 e 2050, eram mais realizáveis.

Falemos do hidrogénio verde, e deste, produzindo eletricidade através da eletrolise da água. Embora essa via não esgote todas as formas de produção de hidrogénio verde, é fundamental. E integra-se plenamente com a estratégia de descarbonização com base na eletrificação. Por duas razões que se alimentam mutuamente: porque a grande disponibilidade de eletricidade renovável e a sua competitividade tornam possível a aposta no hidrogénio; e, inversamente, porque o hidrogénio facilita a cotação das renováveis.

Do ponto de vista puramente financeiro, o “headge” financeiro de um agente que participa em simultâneo nos dois mercados, ou seja, que invista em eletricidade e em hidrogénio verde, permite uma estabilização dos seus fluxos financeiros, o que também é uma boa notícia para o investimento na própria eletricidade.

Há uma complementaridade perfeita, ou seja, a eletricidade torna possível o hidrogénio e a existência de hidrogénio num certo sentido aumenta o valor económico de cada euro investido em eletricidade.

Nesse sentido, e agora falo apenas por razões puramente financeiras, há uma grande simbiose entre as duas energias. O hidrogénio, inclusive, permite responder a um conjunto de problemas.

Entendemos que com a implosão dos gases renováveis e dos combustíveis sintéticos produzidos através deles, temos uma abrangência suficiente no nosso sistema energético, com base cem por cento renovável, que nos permite olhar para as metas de 2030 com maior confiança, assim como para o objetivo pré-definido da neutralidade carbónica, em 2051. Olhamos com otimismo para a possibilidade de atingirmos estas metas.

Sobre o tema da mobilidade, as metas de descarbonização dos transportes são conhecidas. Continuamos a pensar que sobretudo na mobilidade ligeira, as vantagens dos veículos elétricos parecem evidentes. No entanto, reconhecemos que há espaço para alternativas. Aqui, o hidrogénio parece ser complementar com os veículos elétricos a baterias. Os veículos elétricos a bateria são, sem dúvida, mais eficientes. Sabemos que haverá espaço para outro tipo de mobilidade em combustível que use o hidrogénio, nomeadamente naquelas áreas onde a mobilidade elétrica a baterias será mais difícil, seja por questões de peso ou também por outras razões.

Trabalhamos para criar o maior espaço possível de neutralidade tecnológica nos dois. Ou seja: O espaço para a mobilidade elétrica a baterias existe e está em franco crescimento em Portugal. Queremos também criar espaço para que o hidrogénio faça o seu caminho, reconhecendo no entanto que há áreas onde as vantagens ainda não são plenamente evidentes. Queremos aí sermos o mais neutros possíveis e criar espaço para o mercado e os agentes económicos fazerem as suas escolhas.

Sabemos que a neutralidade total é sempre impossível, por isso queremos criar espaço para as duas soluções e dar-lhes espaço para que cresçam.

O hidrogénio é uma possibilidade bastante vantajosa para algumas áreas da mobilidade, entre elas a rodoviária. No transporte mais pesado, onde as vantagens dos veículos elétricos a bateria não são tão evidentes, haverá espaço para a mobilidade: a de passageiros e a de mercadorias. Queremos criar a possibilidade que estas soluções e projetos apareçam. 

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Há outra matéria que nos deve preocupar. A tecnologia das baterias não está fechada, pois continua a haver muita inovação. A experiência em Portugal com o lítio deve sensibilizar-nos para isso. As baterias colocam uma pressão mais forte sobre os recursos minerais do que o hidrogénio.

Se o abastecimento líquido poderá estar razoavelmente assegurado, noutras matérias-primas como o cobalto, aí a questão é já mais complicada.

O hidrogénio poderá ser também uma solução em complementaridade com as baterias, porque liberta alguma pressão sobre algumas matérias-primas fundamentais.

Existem outras áreas onde dificilmente as baterias não chegarão como o transporte marítimo de maior distância e o transporte aéreo. Tudo indica que o hidrogénio, utilizado para fazer combustíveis sintéticos, seja a solução preferida para esse tipo de transportes onde as baterias parecem não ser a melhor opção.

O Governo tem uma missão forte no hidrogénio, consciente e equilibrada. A grande ambição para 2030 começa com projetos piloto. Não faria sentido apenas decretar a existência de projetos piloto sem um horizonte estratégico mais vasto. É preciso testar e avaliar no terreno, começando do pequeno e ir crescendo, sempre com a visão no futuro.

Em relação à mobilidade, a nossa visão de curto prazo é que a grande parte dos projetos de abastecimento de hidrogénio para o mercado interno, tirando a injeção da rede de gás natural, infraestrutura que já existe, serão sobretudo projetos de autoconsumo. Ou seja, a produção estar próxima do local de utilização.

No caso dos transportes, a nossa intuição é que os postos de abastecimento estarão integrados diretamente numa relação de proximidade com a própria produção. No curto prazo, não serão necessárias grandes redes de distribuição, porque os projetos estarão maioritariamente próximos dos locais de consumo. Isto será verdade para o sector dos transportes, mas também para a indústria.

Temos de manter uma mente aberta. No futuro, haverá provavelmente redes de distribuição dedicadas, mas no curto prazo não me parece que essa visão faça muito sentido. Temos de evitar que as infraestruturas existentes se tornem ativos ociosos. Temos de tirar partido da legislação portuguesa que já permite, como acontece na legislação do gás, projetos em autoconsumo, que foram pensados por causa da mobilidade e da indústria.

Se formos licenciar projetos de produção de hidrogénio, devíamos incluir já na legislação a possibilidade de serem para autoconsumo ou outros fins. A legislação é suficientemente abrangente para dar espaço a essa flexibilidade.

Estamos também a finalizar a alteração à regulamentação dos postos de combustível porque não há hoje em Portugal condições para postos de abastecimento a hidrogénio. Estamos a finalizar essa regulamentação e contamos tê-la pronta antes do final do ano.

No PRR-Plano de Recuperação e Resiliência e, depois, no quadro financeiro plurianual, queremos dar um grande destaque à transição energética em geral. Haverá verbas significativas para apoiar projetos com mérito e que se enquadrem na estratégia.

Estamos a criar as bases legais e regulatórias. Temos condições e músculo financeiro suficiente para que a nossa ambição e estratégia tenha correspondência com a capacidade de execução. Queremos que apareçam projetos de empresas e de autarquias, pois são muito importantes nestas matérias.

Queremos criar condições para que essa iniciativa apareça e tenha sucesso! 

Jornada Descarbonização | Hidrogénio - Mobilidade, 04 de nov 2020