O hidrogénio merece e terá de ter um grande apoio político
e um enquadramento regulatório favorável

A descarbonização é uma necessidade transversal a todos os setores da economia. Este grande compromisso que as sociedades têm é consensual nas várias geografias do mundo.

No meio deste grande compromisso, temos o setor energético como aquele que mais terá de se esforçar, porque é o maior responsável pelas emissões que existem hoje.

Estamos no meio de uma transformação energética muito profunda e abrangente. Mesmo para nós, que trabalhamos todos os dias no setor energético, temos alguma dificuldade em materializar quão difícil será cumprir este objetivo, quão exigente será esta transição energética.

Estes gráficos tentam mostrar de alguma forma este nível de ambição. Olhamos para a fotografia de hoje e para aquilo que se perspetiva para 2050, em três perspetivas: no mix de energia primária (e estes são gráficos para a Europa como um todo); no mix de energia final; e, depois, a produção de eletricidade, que é um foco muito específico e importante naquilo que é a energia como um todo.

Estes gráficos dão-nos a conhecer as grandes tendências e as tendências muito disruptivas. Há uma necessidade muito grande de diminuir o nosso consumo de energia. Está a fazer-se um grande esforço na eficiência energética e em todos os processos produtivos. Em suma, fazer o mesmo, ou mais, mas com menos energia! Quer em mix de energia primária quer em mix de energia final.

As cores [do gráfico de que está a falar] são diferentes. Os pretos e os cinzentos. Combustíveis fósseis ou de origem fóssil, a origem das emissões, terá de ter um peso muito mais reduzido no futuro. O vermelho e o cor de rosa correspondem àqueles que aqui mais espaço ganharão, sendo que no vermelho estão energias renováveis. O mix da energia final tem uma coloração diferente e o rosa representa a eletricidade.

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Hoje, na Europa temos um quinto ou um quarto da energia que consumimos, sendo que a energia final é a eletricidade. Portugal está um pouco acima daquilo que é a média europeia pelas nossas particularidades.

Em 2050 será pelo menos metade. Passar de um quinto ou um quarto para metade é uma disrupção muito grande na forma como conseguimos energia! Esta metade na Europa representa em Portugal provavelmente dois terços! Portanto, estamos a falar de uma disrupção muito grande na forma como consumimos energia.

Esta eletricidade será toda ela produzida com fontes renováveis. No caso de Portugal e de Espanha, também o será. Na generalidade das geografias europeias teremos este mix de totalmente descarbonizado na produção de eletricidade.

O que vemos aqui [nos gráficos] é que a eletricidade não vai chegar a todo o lado. Toda a energia que iremos conseguir em 2050 não é eletricidade. Uma parte será renovável, e diretamente, mas vamos ter de continuar a consumir energia sob forma gasosa. Ou seja, moléculas em gás ou em líquido, mas que não são os eletrões.

Esses tipos de energia, se eles têm de ser descarbonizados, aí é que surge o tema do hidrogénio como uma forma de consumir energia em molécula descarbonizada. Este é um hidrogénio verde, produzido a partir da eletrólise – e não o hidrogénio que é obtido hoje – oriundo do gás natural. A eletrólise é, ela própria, alimentada com eletricidade renovável.

O hidrogénio, ao contrário de outros tipos de vetores energéticos, é muito versátil. Pode ser utilizado como matéria-prima na indústria química para a produção de amoníaco e outros derivados químicos, mas também nas refinarias. Pode ser ainda utilizado como fonte de energia, para usos particulares onde a eletricidade não conseguir chegar. São usos específicos onde precisamos de temperaturas muito elevadas ou onde as baterias terão outras limitações como foi aqui já referido, no caso dos transportes de longo curso e pesados.

Nem todos os usos têm o mesmo nível de competitividade. A competitividade do hidrogénio é um tema na ordem do dia. O hidrogénio merece e terá de ter um grande apoio político e um enquadramento regulatório favorável, porque ainda está longe de ser competitivo com outras energias, as quais eventualmente substituirá.

Estamos longe dessa competitividade por diversas razões. Temos de ter um enquadramento regulatório favorável no início. Mas a competitividade relativa do hidrogénio, quando a vemos do lado da produção, estamos a ter uma lente, diria eu, algo míope daquilo que é na realidade.

É certo que isso nos dá uma ideia se o hidrogénio é mais caro ou mais barato do que a forma alternativa de o produzir, mas é preciso ir até ao ponto final do consumo para perceber se estamos muito longe da competitividade com hidrogénio ou não. E é necessário comparar esse uso final com as alternativas convencionais fósseis ou outras. Devemos fazer este exercício nos vários níveis do hidrogénio para não comparar coisas que não são comparáveis!

Onde vemos o espaço mais promissor para o hidrogénio? Nas indústrias particulares, nas refinarias, na produção de aço, nas indústrias químicas, e eventualmente algumas cimenteiras. São nestes setores, e por esta ordem, que vemos o maior potencial de utilização do hidrogénio. Portanto, é mais sustentável o apoio neste tipo de usos e o que faz mais sentido a prazo. Também nos transportes, em particular os pesados, de muito longo curso e de mercadorias.

Num segundo pacote de usos, embora mais dúbio, pode fazer sentido a promoção de hidrogénio, como é o caso dos transportes de passageiros e outros como o marítimo e o ferroviário.

Também os usos para redução de eletricidade que no nosso mercado ibérico pode não ser uma decisão muito racional, mas há outros mercados onde a flexibilidade seja um desafio superior e possa fazer sentido ter uma produção térmica descarbonizada.

Pode não fazer sentido [no mercado ibérico] porque temos certas particularidades num sistema com bastante flexibilidade e outros usos mais custificazes para produzir aquilo que precisamos no sistema do que um processo de conversão que em si é bastante ineficiente. A produção de gás através de eletrolise e, depois, a produção novamente de eletricidade é um processo que é bastante ineficiente em termos físicos. Tem várias perdas ao longo da cadeia.

Existem atualmente tecnologias descarbonizadas mais eficientes para satisfazer diversas necessidades de consumo, entre elas as que temos nos nossos edifícios – para diferentes usos como climatéricos e não climatéricos – e os transportes ligeiros.

A EDP está atenta a estas oportunidades do hidrogénio e temos estado a explorá-las em diferentes facetas e com diversos projetos em várias fases de avanço, entre eles o projeto de Sines.

Temos um projeto de investigação onde estudamos a possibilidade de produzir hidrogénio em offshore, associado também ao nosso desenvolvimento de eólicas offshore.

Na Central do Ribatejo, uma central combinada a gás natural, estamos a desenvolver um projeto piloto, enquadrado num programa europeu. Aqui aprendemos sobre a tecnologia e sobre um uso particular, que é o de dar mais flexibilidade a um ativo térmico e testar não só à produção de hidrogénio, mas também a possibilidade de trabalhar noutro tipo de mercados, nomeadamente os serviços de sistema.

Estamos também a explorar oportunidades no respeitante aos veículos pesados para desenvolver projetos piloto que façam sentido. 

Jornada Descarbonização | Hidrogénio - Mobilidade, 04 de nov 2020