“Nunca aceitei ser preterida por apenas ser mulher”

• Quais as razões que levaram a escolher a actividade que exerce?
Licenciei-me em Economia pela Universidade Católica Portuguesa e posteriormente tirei um Mestrado em Econometria Aplicada e Previsão no ISEG. Comecei a minha atividade profissional como analista júnior no Departamento de Análise Macro e Rendimento Fixo do Banco Santander e, depois de tirar o mestrado, fui trabalhar como economista no Gabinete de Estudos do Instituto de Gestão da Tesouraria e do Crédito Público (IGCP), onde trabalhei quase 8 anos. Uma experiência em que aprendi imenso e de que me orgulho bastante pois foi a oportunidade de trabalhar verdadeiramente em economia. Digo isto, porque a maior parte das pessoas que se licenciam em economia todos os anos em Portugal acabam por ir trabalhar em gestão. Há poucas exceções. No estrangeiro não será tanto assim, mas em Portugal, não havendo tantas oportunidades de se trabalhar mesmo em economia as pessoas acabam por ir para a área da gestão e, na generalidade dos casos, enveredar a sua carreira por aí. Fora do Iberfar, para além do IGCP, também tive uma experiência de docência no ensino superior. Fui assistente da disciplina de Economia dos mestrados da Faculdade de Engenharia da Universidade Católica Portuguesa, uma experiência que representou um grande desafio e me deu um enorme prazer.
Depois de mais de 10 anos dedicada à Economia, a minha grande paixão, achei que tinha chegado o momento de me juntar ao grupo de empresas familiar.
Neste sentido, decidi juntar-me, em abril de 2019, à administração das empresas do grupo Iberfar. Cerca de um ano depois, e com objetivo de especializar mais a gestão ao nível de cada uma das empresas, assumi a administração executiva do Iberfar, sendo a empresa do grupo à qual dedico a minha maior atenção.

• Quais as barreiras que teve ultrapassar para chegar onde está?
O facto de ser mãe de três filhos e de o meu marido ter também uma vida activa, fez com que tivesse sempre de ponderar e equilibrar diversos factores. Em primeiro lugar é preciso ter a certeza, ou pelo menos uma forte convicção, de que é mesmo isso que se quer. Porque não é obrigatório! Querendo, penso que sendo mulher e, sobretudo, tendo responsabilidades familiares, é essencial ter uma boa rede de apoio. Infelizmente, as responsabilidades familiares ainda recaem muito sobre as mulheres e, ou há uma justa divisão dessas responsabilidades com quem se vive, ou então tem de se ter redes de apoio.
É preciso ter determinação, persistência, e não desistir perante as adversidades. Também é fundamental rodearem-se de pessoas, dentro ou fora das organizações onde trabalham, que as possam orientar e apoiar no caminho!


“Eu faço parte da geração que pretende mudar isso, colocando a mulher no papel central e transformador da sociedade.”

• Ser mulher revelou-se, nalgum momento da sua carreira, um factor diferenciador?
Sem qualquer arrogância, penso que ser mulher é ser mais completa e polivalente, sobretudo depois de ser mãe, aprendemos a fazer acontecer independentemente das condições e envolvente. E as mulheres, nas últimas gerações, sempre tiveram um papel secundário. Eu faço parte da geração que pretende mudar isso, colocando a mulher no papel central e transformador da sociedade. E isso faz-se através das comunidades e grupos a que pertencemos. A esse respeito não queria deixar de fazer referência ao Projeto Promova – um programa de liderança no feminino, do qual eu tive o privilégio de ser uma das pioneiras.

“Nunca aceitei ser preterida por apenas ser mulher. (…) Fosse na escola, universidade ou em ambiente profissional. O que aliás tento sempre transmitir às minhas filhas.”

• A pergunta para o milhão – O que teve de lutar ou de abdicar para aqui chegar?
Nunca aceitei ser preterida por apenas ser mulher. Também foi fundamental ter muita ambição, foco e trabalho para provar estar à altura das posições e projectos mais exigentes que assumi e abracei. Fosse na escola, universidade ou em ambiente profissional. O que aliás tento sempre transmitir às minhas filhas.

• Há alguma figura feminina que seja para si uma referência ou inspiração, e porquê?
A minha avó, que sempre trabalhou, inclusivamente para além da idade da reforma e sempre fez questão de ser uma mulher independente. Sempre me disse: “Não deixes para amanhã aquilo podes fazer hoje” e isso incutiu-me a garra e determinação de dar sempre o meu melhor e de querer agarrar todas as oportunidades. Licenciou-se em farmácia, tendo sido das primeiras mulheres licenciadas em Portugal. Era uma vez mais uma mulher polivalente e multifacetada, pois para além de ter a sua farmácia, recordo-me que ajudava o meu avô aconselhando-o nos negócios e ao mesmo tempo geria a organização da casa e ainda durante toda a sua vida de 97 anos foi a “cola” da família.