Women&Business | Entrevista a Vanessa Miranda

Durante o seu percurso formativo e profissional foi preterida por motivo de género? Em caso afirmativo, houve algum momento mais doloroso? Como o ultrapassou? 
Sou psicóloga de formação base. O predomínio das mulheres é conhecido nestas áreas de formação, pelo que não foi tema. Mais tarde em Gestão – num cenário de profunda igualdade de género – não senti qualquer dor por ser mulher, mas a desigualdade existente nos cargos de chefia das organizações era um dado badalado e tido como naturalmente problemático. Tanto mais porque quem estuda estes temas e também quem os vive, apercebe-se do quão importantes são os perfis de personalidade e de competências mais característicos das mulheres, a par com os dos homens, para organizações mais completas e felizes.

Estudos diversos provam a existência de barreiras empresariais, culturais e pessoais à gestão de topo no feminino. Na sua opinião, como deverão ser eliminadas? Através do aumento das quotas de género nas empresas e entre os titulares de cargos políticos e públicos?
Entendo a imposição, mas não a adoro. Essa imposição vai acelerar o processo de consciência para os benefícios de ter as mulheres a partilhar esses cargos com os homens e não posso deixar de ficar satisfeita com esse dano colateral. Mas é isso. Essas barreiras destroem-se com evidências. Com a clareza do benefício de ter as mulheres, as competências, as características e as vivências do feminino ao serviço da gestão. Processo moroso, que podendo ter fatores que conduzam a pequenos empurrões, não deixa de ser um mega processo de mudança, de consciencialização e de alteração de paradigma. 

As mulheres trabalhadoras, mesmo ao mais alto nível, são alvo de maior intensidade e exigência laboral em relação aos homens?
A estrutura social convencionada – e felizmente cada vez mais posta em causa – faz com que o esforço da mulher para dar uma resposta adequada em todos os seus eixos seja maior do que o esforço necessário aplicar pelos homens. A boa notícia é que todos sentimos que estes terrenos estão agora a ser remexidos e muitas são as alterações que irão advir. Agora leva o tempo que nós consideramos – como sociedade moderna – que não poderia levar. Mudar padrões de comportamento e quadro de valores exige uma concertação global naquilo que é a vida das pessoas, sendo que a intervenção nos mais pequenos é uma fórmula auspiciosa de sucesso, mas lá está, que ganhará quanto mais os fatores que as rodeiam estiverem concertados para isso mesmo.  

Entrevista a Vanessa Miranda - Parte I Entendo a imposição, mas não a adoro [quotas de género]

 

Enquanto administradora de uma empresa consultora e especialista na área de Recursos Humanos, como avalia a progressão da carreira nas mulheres – em Portugal e noutras regiões do globo – que querem chegar ao topo no mesmo pé de igualdade com os homens?
O meu à vontade para abordar esta questão é maior se falarmos da realidade portuguesa. As preocupações relativas à igualdade de género nas organizações têm origem num passado recente. São cada vez mais levadas a sério – com estruturas organizativas criadas para o efeito, integrando objetivos estratégicos – mas há realidades organizacionais onde ainda não chegaram e levarão tempo a chegar. Quando falamos de PME, organizações inseridas em mercados muito competitivos isto é muitíssimo evidente. A parcela de vida que temos de abdicar para nos ser possível esta ascensão não é para toda a gente e faz com que muitas de nós saltem fora – porque não se identificam com o modelo de gestão – e perde-se muito valor destas organizações. Quem se apercebe disto, investe na revisão profunda destes modelos, por forma a reterem estes talentos e criando carreiras sedutoras onde a chegada ao topo é real. E aqui, os relatos dominantes são muito positivos, por parte da gestão e por parte dos colaboradores. Há naturalmente exceções – como em tudo na vida – mas falamos de tendências. A mulher é ambiciosa, é lutadora, é perseverante, é humana e muito resiliente. Quer cada vez mais que o seu eixo profissional a realize, mas quer também ser mãe, ser mulher, ser amiga. E quere-o com contribuições muito semelhantes. Há homens que partilham esta forma de vida, mas estou convicta que em muito menor proporção. A mulher que coloca esta fasquia na sua vida trabalha sob níveis de adrenalina e também felicidade – por se sentirem completas – que representam motores fortíssimos que contribuem para níveis de produtividade muito elevados. Isto é nosso. Isto é muito feminino.

Há qualidades únicas na liderança feminina, irrepetíveis nos homens?
"Claro, tal como referi anteriormente. Tal como o contrário também se verifica.
A nós atribuem-nos como características mais comuns (que aos homens) a sensibilidade, a empatia, a resiliência, a flexibilidade e, fundamental, o foco nas emoções, o que acaba por reger toda a nossa relação com o outro. O foco dos homens tende a ser outro." 
Entrevista a Vanessa Miranda - Parte II As mulheres e a progressão na carreira em PME


É empresária, mãe de quatro filhos. Trocou Lisboa por Leiria e esteve “confinada”, por motivos de gravidez, mais de um ano, antes da pandemia. Como conseguiu fazer o equilíbrio entre o pessoal e o profissional num cenário de mudança de vida radical?
O último ano é um ano difícil para dissertar sobre ele. Mamã de gémeos um mês antes do início do primeiro confinamento e, por isso, com quatro crianças em casa, provocou um quadro complicado de caos, onde ainda todos estamos, mas agarrados a estes números que nos dão uma forte esperança que pode estar tudo a compor-se. Recordando-me de como tudo era antes deste ano, o equilíbrio para mim é muito tranquilo de se fazer. Saí de Lisboa para viver a minha família, pelo que agora não abro mão da flexibilidade que procurei e que alcancei, com uma exigência tremenda quando o foco é o trabalho, por forma a garantir que a afetação de tempo não prejudica o trabalho que é desenvolvido. E consigo, o que me traz uma grande realização pessoal. Neste ano a pressão teve de diminuir – para que não me sentisse em permanente falha em todas as dimensões da minha vida – mas o trabalho continuou, o teletrabalho vem sendo feito com as quatro crianças em casa, com as conciliações possíveis com o meu marido, e com uma sensação de cansaço que neste momento provoca anestesia, autogestão de uns, piloto automático de outros e ir gerindo a crise. Gostamos imenso uns dos outros, mas precisamos de sentir saudades. Estamos sempre em cima uns dos outros e as saudades não entram. Vou arrepender-me destas palavras daqui a uns tempos… 

As mulheres têm mais deveres de que direitos? No entanto, lá em casa, “a patroa é que manda”. Continua a ser assim?
O bem-estar da mulher determina em muito o mood de uma casa. Ela toca muitos instrumentos de uma vez, de forma harmoniosa e que deslumbra os homens. Quando algum desafina, à volta, quem assiste, fica em estado de vigia e torce para que a orquestra volte a tocar de forma harmoniosa porque assim é que se é feliz naquele lar. Por isso não sei se é a patroa que manda, mas a patroa influi muito numa casa feliz. 

Por trás de um grande homem está sempre uma grande mulher”, cliché em desuso?
Sim. Se por trás de um grande ser estiver sempre outro grande ser, apoio. Isto porque as exigências são realmente muitas e ter suporte, ter rede é fundamental. Pelo que quem nos segura – os pais, os avós, tios, amigos – são a comunidade que nos salva e que garantem o nosso sucesso com saúde física e mental. 

Por último, podemos afirmar que estamos, pelo menos no mundo ocidental, num estado primário de desenvolvimento humano quando ainda falamos destas diferenças e aprovamos leis de paridade e sistemas de quotas?
Podemos afirmar que o caminho que temos a percorrer é longo, é de evangelização. Mas pense que a boa notícia é que será um caminho de não retorno e isso só nos pode deixar muito felizes.

Entrevista a Vanessa Miranda - Parte III O bem-estar da mulher determina em muito o mood de uma casa