As empresas que se deslocaram à Novotecna, em Coimbra, para assistir a mais uma sessão do “Road Show I&D 2024”, iniciativa desenvolvida em parceria com a Universidade Nova de Lisboa/Faculdade de Ciências e Tecnologia e a FNWAY,  puderam compreender melhor quais são os financiamentos disponíveis no Portugal 2030 e no Horizonte Europa que apoiam a inovação empresarial e os investimentos na Investigação e Desenvolvimento (I&D), em áreas como a Robótica, Inteligência Artificial, Energia, Descarbonização, Indústria 4.0, Manufatura, Automação, Big Data, Data Analytics, Internet das Coisas e Sistemas Complexos Inteligentes. 

 

Para potenciar o seu negócio seguindo uma estratégia com base na inovação, as empresas tiveram oportunidade de fazer o levantamento das necessidades de I&D com os investigadores presentes neste encontro, realizado no dia 31 de Janeiro, que contou também com a participação de José Eduardo Carvalho e Horácio Pina Prata, respetivamente presidentes da AIP e da Associação Empresarial de Coimbra (NERC); do engenheiro Luís Mira Amaral, da FNWAY; e de Ricardo Jardim Gonçalves, professor catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT).

 

Esta é uma oportunidade rara de as empresas receberem serviços para a atividade de I&D a baixo custo, com redução do preço dos serviços (nacionais e internacionais) até 87.5%, ou seja, a PME paga somente 12.5% do custo real do serviço na realização de estudos, aplicação de tecnologias inovadoras, criação de protótipos, desenvolvimento de produto e/ou serviço, entre outras necessidades.


Presidente da AIP: "Investigadores respondem às necessidades das PME"

 

José Eduardo Carvalho, presidente da AIP, relevou a importância e a urgência de ajudar as PME a compreenderem os mecanismos dos apoios públicos na sua totalidade, bem como os caminhos a seguir: “Os mecanismos de intermediação e de ligação entre o sistema científico e as empresas ainda não atingiram o patamar desejável. É para melhorar esta colaboração que estamos aqui hoje. Há política pública, existem sistemas de incentivos disponíveis, tanto em termos nacionais como europeus. Por outro lado, uma empresa que tenha necessidade de I&D não conhece quais são as universidades e os seus respetivos nichos de especialização que as podem colmatar”. 

 

A ideia da AIP ao criar este “Road Show I&D" foi a de contribuir para esse conhecimento granjeado pela universidade. “Ao verificar que têm trabalhado frequentemente com grandes empresas portuguesas e empresas internacionais, lançamos-lhe o desafio de colocarem os seus investigadores ao serviço das empresas, nomeadamente as PME, para ver se conseguimos responder às suas necessidades de investigação e inovação”, salientou o presidente da AIP.

 

Estes encontros de trabalho, multissetoriais, que arrancaram no dia 2 de novembro nas Caldas da Rainha e que serão replicados em mais sessões durante o ano, no continente e nas ilhas dos Açores e da Madeira, além de indicarem as oportunidades de apoios existentes para as empresas vão mais longe, porque explicam, com o detalhe e os devidos alertas, como preparar candidaturas a projetos europeus.


Luís Mira Amaral: "Horizonte Europa pode abrir oportunidades para cooperação empresarial no espaço lusófono"

 

“Qualquer projeto de I&D tem de estar num estágio de algum afastamento do mercado”, avisou Luís Mira Amaral, voz experiente e especialista em matéria de candidaturas a fundos europeus. “Tem de incorporar alguma incerteza em relação ao mercado e à tecnologia, caso contrário nem sequer é um projeto de I&D”. Ou seja: “As empresas que se candidatam ao Portugal 2030 devem fazê-lo com projetos em bens transacionáveis, internacionalizáveis, inovadores e criativos, e devem conseguir responder a requisitos como a viabilidade económico-financeira, fontes de financiamento asseguradas e a aprovação do projeto pelo executivo camarário.”

 

Outra importante nota importante deixada por Mira Amaral é relativa ao Horizonte Europa, a “Champions League” dos sistemas de incentivos, um robusto programa dotado com 11,99 mil milhões de euros (2021-2027) devido ao seu rigor e exigência. 

 

“O Horizonte Europa pode abrir oportunidades às empresas portuguesas para a cooperação empresarial no espaço lusófono. A este nível, os projetos, que são apresentados em consórcio, podem englobar empresas africanas, sendo o investimento destas também elegível; mas se forem empresas oriundas dos EUA ou do Reino Unido, tal já não é possível,” precisou.

 

Aliás, as universidades inglesas, ainda nas suas palavras, eram as que mais aproveitavam os programas anteriores e aquelas que mais recursos financeiros recebiam. “Mais um aspeto que revela o falhanço do Brexit”, disse, ao referir o impacto que a saída do Reino Unido da União Europeia causou na sociedade de conhecimento britânica.

 

O Horizonte Europa apoia também projetos que respondam à produção, por exemplo, de baterias para alimentar a mobilidade sustentável, entre outras necessidades. “Pese embora o facto de os ambientalistas se manifestarem contra a sua exploração, Portugal tem um dos maiores recursos europeus de lítio, matéria-prima essencial na atual revolução tecnológica”.

 

Ricardo Jardim Gonçalves: “PME só pagam 12,5% para fazer inovação com apoio da UNINOVA”

 

“É muito importante fomentar a participação em consórcios, conforme salientou o engenheiro Mira Amaral quando falou do Horizonte Europa, programa que tem uma complexidade muito grande pelo que é essencial que haja um tipo de apoio para quem está dentro dessa máquina, tal como referiu. A própria UNINOVA está neste momento a coordenar um total 11 polos no cluster de inovação digital na Europa, que eram 33 polos em todo o Velho Continente, entre eles o de Portugal. Ganhamos dois polos de inovação digital, um na área da manufatura, outro na parte dos dados, o que nos permite fazer transferência de tecnologia e prestar serviços às empresas, nomeadamente às PME, com uma redução de preço que pode ir até 87.5%. Ou seja, para um serviço, por exemplo, de 10 mil euros, a Comissão Europeia financia até 87,5% e a empresa só tem de pagar os outros 12,5%. Para as grandes empresas e mid caps, vai até 50%. O objetivo é fomentar a prestação de serviços para transferência de tecnologia dos centros de saber para o tecido empresarial. Este apoio já está disponível para ser aplicado.”

 

“Diga-nos qual é a sua dor”: o exemplo dos pratos do Ikea 

 

A fabricante de cerâmica Ria Stone, moderna e jovem empresa do grupo Visa Beira, foi um dos projetos de referência que Jardim Gonçalves levou a Coimbra, apresentado pelo investigador responsável, Paulo Sérgio Figueiras: “A Ria Stone estava com um grande problema – estavam com 8% de defeitos, o que, para uma fábrica que produz 50 milhões de pratos por ano, significa que 4 milhões de pratos vão para o lixo. A Ria Stone não sabia bem qual é era o problema, qual era a dor que tinha. Chegamos lá e fizemos uma análise causal dos problemas da empresa com a recolha de dados e respetivo tratamento; onde eram recolhidos e como era feito esse trabalho; e quais eram os grandes problemas ao nível da recolha desses mesmos dados. Descobrimos que 70% desses defeitos vinham da densidade da tinta que usavam para pintar os pratos, defeitos esses que foram reduzidos em quase 90% através de uma simples mistura feita por um operário. Para isso, criámos dois modelos de previsão de Inteligência Artificial que nos davam a previsão da qualidade do produto a partir dos dados relativas às características das matérias-primas que usavam para o fabrico dos pratos, ou seja, a tinta e a pasta cerâmica.”

 

A Ria Stone, é uma unidade industrial situada em Ílhavo, que surgiu em 2012, após concurso internacional lançado pela multinacional sueca Ikea, para produção de 30 milhões de peças por ano de louça de mesa em grés para o mercado europeu.

 

Após o Grupo Vista Alegre/Visabeira ter ganho o concurso, a Ria Stone iniciou a laboração em 2014. Rapidamente se verificou o potencial do projeto e em 2017 a multinacional sueca reforçou a colaboração existente. Assim, em 2019, a Ria Stone expandiu a sua capacidade instalada para 50 milhões de peças de louça em grés, sendo que 99% da produção destina-se a exportação para o referido mercado europeu.

 

A Ria Stone diferencia-se pela utilização de um processo produtivo inovador a nível mundial que revolucionou a produção de louça de mesa. A aposta num processo totalmente automatizado e na produção em monocozedura de louça de mesa, garante a mais elevada eficiência energética, mais sustentável e competitiva. Empresa da Visabeira completamente automatizada uma fábrica que foi construída neste 2016.

 

Horácio Pina e Prata: “Empresas de Coimbra devem aproveitar estas iniciativas”

 

O presidente da NERC, Horácio Pina e Prata, salientou, por seu turno, o facto deste “road show” de investigação aplicada às necessidades das PME, aberto e sem custos, se revelar uma relevante oportunidade para o tecido empresarial da região de Coimbra: “As empresas também devem aproveitar estas iniciativas. Esta parceria com a AIP é ativa e estratégica e tem como objetivo apoiarmos cada vez mais as empresas da região de Coimbra nesta ligação entre o meio empresarial, o meio universitário e as instituições de interface. Estamos perante uma dinâmica de interface, uma dinâmica tecnológica e, acima de tudo, uma dinâmica de posicionamento e de enquadramento também territorial”.